Tradução: "O Demônio da Flor" (Clark Ashton-Smith), versão 1

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Tradução: "O Demônio da Flor" (Clark Ashton-Smith), versão 1

Mensagem por joaofld em Seg 25 Mar 2013, 11:52

Por José Geraldo Gouvea


A vegetação do planeta Lophai não é como as plantas e flores da Terra, que crescem pacíficas sob um sol solitário. Enrolando e desenrolando em manhãs duplas, crescendo tumultuosamente sob vastos sóis de verde jade e alaranjado rubi, vibrando se agitando em ricos ocasos, em noites toldadas por auroras; elas parecem campos de serpentes enraizadas que dançam eternamente para uma música sobrenatural.

Muitas eram pequenas e furtivas, e rastejavam como víboras no chão. Outras eram altas como jiboias, chegando soberbamente a posturas hieráticas diante da luz brilhante. Algumas cresciam com caules únicos ou duplos que se desenvolviam em cabeças de hidra e outras eram franjadas e enfeitadas com folhas que sugeriam as azas de lagartos voadores, os pendões de lanças fantásticas, os filactérios de estranhas ordens sacerdotais. Algumas pareciam possuir as escamas escarlates dos dragões, outras eram linguadas como as chamas negras ou os vapores colorados que saem do crepitar de incensários bárbaros, mas outras eram ainda armadas com redes ou gavinhas carnadas ou grandes inflorescências como escudos perfuradas em batalha. E todas eram equipadas com dardos e dentes venenosos, todas eram vivas, incansáveis e inteligentes.

Elas eram as senhoras de Lophai, e qualquer outra vida existia por sua permissão. A gente daquele mundo lhes havia sido inferior desde eras esquecidas, e mesmo nos mitos mais primitivos não havia qualquer sugestão de que outra ordem das coisas tivesse jamais prevalecido. E as plantas, por sua vez, assim como a fauna e a humanidade de Lophai, davam obediência inquestionada à suprema e terrível flor conhecida como a Voorqual, da qual se acreditava que um demônio tutelar, mais antigo que os sóis gêmeos, fizera seu avatar imortal.

A Voorqual era servida por um clero humano, escolhido dentre a realeza e a aristocracia de Lophai. No coração da capital, Lospar, em um reino equatorial, ele crescera desde a antiguidade no topo de uma alta pirâmide de terraços negros que contemplava a cidade como os jardins suspensos de uma grande Babilônia, povoada pelas formas florais inferiores, mas letais. No centro de seu largo topo a Voorqual se erguia solitária, sobre uma base plana, nivelada com a plataforma de mineral escuro que a circundava. A base era preenchida por um adubo do qual o pó de múmias reais era um ingrediente essencial.

A flor demônio surgia de um bulbo tão espessado pelo crescimento das eras que parecia uma urna de pedra. Dele se erguia um caule nodoso e forte que tivera em tempos antigos um galho de mandrágora, mas cujas metades haviam então se unido em uma coisa escamosa e enrugada como o rabo de um monstro marinho mítico. O caule era salpicado de tons de bronze azinhavrado e cobre antigo, com manchas azuis lívidas e marcas roxas de carne corrompida. Terminava em uma coroa de folhas duras e enegrecidas, listradas e pintadas de branco metálico e venenoso, bordejadas de um serrilhado como o de armas rústicas. Abaixo da coroa saía um galho longo e sinuoso, escamado como o tronco principal, que serpenteava para baixo e para o lado até terminar no cálice de uma floração bizarra — como se o galho, de um modo sardônico, estendesse uma infernal tijela de esmolas.

Abominável e monstruoso era tal cálice — que, como as folhas, a lenda dizia renovar-se a intervalos de mil anos. Junto à base ele tinha a cor ardente de um pesado rubi, que clareava em certas áreas como sangue de dragão, nos lados intumescidos ele se enchia de faixas rosadas como um entardecer do inferno e junto à boca ele chamejava de um nácar vermelho amarelado como o sangue das salamandras. Quem ousasse olhar dentro, veria que a copa era coberta de um violeta sepulcral, que escurecia em direção ao fundo, que era pontilhado de uma miríade de poros e riscado por veias turgescentes de um verde sulfúrico.

Oscilando em um ritmo lento, letal e hipnótico, com um silvo profundo e solene, a Voorqual dominava a cidade de Lospar e o mundo de Lophai. Abaixo, nos degraus da pirâmide, as plantas ofídicas amontoadas seguiam o tempo desse ritmo em seu balanço e sussurros. E muito além de Lospar, até os polos do planeta e em todas as suas longitudes, a vegetação viva obedecia ao tempo soberano da Voorqual.

Infinito era o poder exercido por este ser sobre a gente que, por falta de nome melhor, considerei a humanidade de Lophai. Numerosas e assustadoras eram as lendas que haviam surgido, através das eras, a respeito da Voorqual. E horrível era o sacrifício demandado cada ano no solstício de verão pelo demônio: encher seu cálice com o sangue de um sacerdote ou sacerdotisa escolhido entre os hierofantes reunidos diante da Voorqual até que este, invertido e vazio, baixasse como uma mitra infernal sobre a cabeça de um deles.

Lunithi, rei das terras de Lospar e sumo sacerdote da Voorqual, foi o último e talvez o primeiro de sua raça a rebelar-se contra tal tirania singular. Havia mitos obscuros de um líder primordial que ousara recusar o sacrifício exigido e cujo povo, em consequência, fora dizimado por uma guerra mortal contra as plantas serpentinas que, em obediência ao demônio enfurecido, tinham se desenraizado do chão em toda parte e marchado sobre as cidades de Lophai, matando ou vampirizando todos que encontraram em seu caminho. Lunithi, desde criança, obedecera à vontade do ditador vegetal implicitamente e sem questionar e oferecera a adoração costumeira, executara os ritos necessários. Negá-los seria blasfemo. Ele nunca sonhara em rebelar-se até que, na época da escolha da vítima anual, e trinta sóis antes da data de suas núpcias com Nala, também sacerdotista da Voorqual, ele viu o graal invertido de funéreo carmim descer hesitantemente sobre a bela cabeça de sua noiva.

Lunithi experimentou uma consternação melancólica, uma decepção profunda e negra que tentou apagar em seu coração. Nala, atordoada e conformada, em uma inércia de místico desespero, aceitou seu destino sem questionar, mas uma dúvida blasfema se formou secretamente nos pensamentos do rei.

Trêmulo diante de sua impiedade, ele se perguntou se não haveria alguma maneira de salvar Nala, subtrair ao demônio o seu tributo macabro. Para fazer isso e escapar impunemente, e a seus súditos, sabia que deveria atentar contra a própria vida do monstro, que acreditava-se ser eterno e invulnerável. Parecia ímpio até mesmo pensar a respeito da veracidade de sua crença, que havia sido aceita por tanto tempo que adquirira a força de uma fé religiosa e era praticada unanimemente. Em meio a tais reflexões Lunithi lembrou de um velho mito antigo sobre a existência de um ser neutro e independente conhecimento como a Occlith: um demônio coevo da Voorqual, que não era aliado nem do homem e nem das criaturas florais.

Este ser diziam viver além do deserto de Aphom, nas desabitadas montanhas de rocha branca, acima do hábitat das flores ofídicas. Há muito tempo nenhum homem via a Occlith, porque a jornada através de Aphom não era fácil de se levar a termo. Mas esta entidade era supostamente imortal e se mantinha à parte e isolada, meditando sobre todas as coisas sem interferir nunca em seus processos. Porém, dizia-se que no passado ela dera valiosos conselhos a certo rei que deixara Lospar e fora até o seu tugúrio entre os rochedos brancos.

Enlutado e desesperado, Lunithi resolveu buscar a Occlith e perguntar-lhe sobre a possibilidade de matar a Voorqual. Se por quaisquer meios mortais o demônio pudesse ser destruído, ele afastaria de Lophai a tirania há tanto tempo estabelecida, cuja sombra recaía sobre todas as coisas, partindo da pirâmide negra.

Era preciso que procedesse com a máxima cautela, confiando em ninguém, ocultar todo o tempo os seus pensamentos do escrutínio oculto da Voorqual. No intervalo de cinco dias entre a escolha da vítima e a consumação do sacrifício ele deveria levar a efeito o seu plano louco.
Desacompanhado e vestido como um simplório caçador ele deixou seu palácio durante a curta noite de três horas em que todos dormitavam e seguiu pelo deserto de Aphom. No nascer do sol rubro ele chegara à vastidão sem caminhos e sofria dolorosamente em suas colinas de afiadas pedras negras, como as ondas de um oceano encapelado que se petrificara.

Logo os raios do sol verde se somaram aos do outro, e Aphom se tornou um inferno colorido através do qual Lunithi se arrastava, rastejando de escarpa a escarpa vítrea ou descansando às vezes nas sombras coloridas. Não havia água em lugar algum, mas furtivas miragens brilhavam e sumiam, e a areia solta parecia formar arroios no fundo dos vales profundos. Ao se pôr o primeiro sol, ele finalmente viu as montanhas pálidas além de Aphom, erguendo-se como rochedos de espuma congelada sobre o mar escuro do deserto. Sob a luz do sol amarelo-avermelhado que se punha, elas pareciam tingidas por veios semitransparentes, em azul claro, jade e laranja. Então as luzes se fundiram em tons de berilo e turmalina e o sol verde reinou soberano, até que ele também se pôs, deixando um crepúsculo de cor marinha. Nesta semiescuridão Lunithi chegou ao pé dos pálidos penhascos e ali, exausto, dormiu até o segundo sol nascer.

Levantando-se, começou a escalada das montanhas brancas. Elas se erguiam estéreis e terríveis diante dele, contra a luz dos sóis ocultos, com rochedos que eram como os terraços altíssimos dos deuses. Tal como o rei que o precedera no antigo mito, ele encontrou uma trilha precária que o levou através dos abismos estreitos e ravinas. Por fim chegou à mais vasta fissura, que rasgava o coração da cordilheira branca e era o único meio pelo qual se podia chegar ao legendário domínio da Occlith.

As paredes eretas do abismo subiam cada vez mais alto acima dele, cortando a luz dos sóis mas criando com sua brancura uma luminescência sutil e mortiça que iluminava o caminho. A fissura era algo como o corte da espada de um gigante macrocósmico. Ela seguia para baixo, cada vez mais íngreme, como uma ferida que chegava ao coração de Lophai.

Lunithi, tal como todos de sua raça, podia subsistir durante prolongados períodos sem outra nutrição que não a luz do sol e a água. Trouxera consigo um frasco de metal, cheio da água de Lophai, que bebia raramente enquanto descia ao abismo, pois as montanhas brancas eram secas e ele temia tocar as poças e correntezas de fluidos desconhecidos por que cruzava às vezes na penumbra. Havia fontes de cor sanguínea que fumegavam e borbulhavam diante dele e depois desapareciam em rachaduras sem fundo, e também riachos de metal mercurial, verde, azul ou âmbar, que passavam perto dele como serpentes liquefeitas e então escorriam para dentro de cavernas escuras. Agros vapores subiam das fendas do abismo e Lunithi se sentiu entre os estranhos processos químicos da natureza. Neste mundo fantástico de pedra, que as plantas de Lophai nunca poderiam invadir, ele parecia ter deixao muito para trás a diabólica e impiedosa tirania da Voorqual.

Por fim chegou a um lago límpido que ocupava quase toda a amplitude do abismo. Para passar por ele teve de se esgueirar por uma orla estreita e insegura. Um fragmento da rocha marmórea se soltou sob seus pés e caiu dentro do lago enquanto ele chegava ao outro lado, então o líquido incolor ferveu e assobiou como mil víboras. Pensando em suas propriedades e temendo o venenoso sibilar que tardou bastante a diminuir, Lunithi apertou o passo e logo chegou ao fim da fissura.

Ali ele emergiu no fundo de uma depressão semelhante a uma cratera, que era o lar da Occlith. Paredes caneladas e colunas se erguiam a alturas estupendas por todos os lados e o sol alaranjado rubi, então no zênite, despejava uma catarata de maravilhosas chamas e sombras.
De costas para a parede oposta da cratera, em uma postura ereta, ele contemplou aquele ser conhecido como a Occlith, que tinha a aparência de um pilar cruciforme de mineral azul, que brilhava com seu próprio lustro esotérico. Seguindo em frente ele se prostrou diante do pilar e então, em uma entonação trêmula de espanto, se aventurou a fazer a pergunta ao desejado oráculo.

Por um momento a Occlith manteve seu silêncio de eras. Olhando timidamente, o rei percebeu duas luzes como um prateado místico que fulgiam e se apagavam em uma pulsação ritmada e lenta pelos braços da cruz azul. Então, da gigantesca coisa brilhante saiu uma voz que era como o retinir de fragmentos minerais esfregados uns nos outros, mas que de certa maneira assumia a forma de palavras articuladas.

— É possível — disse a Occlith — matar a planta conhecida como a Voorqual, na qual um antigo demônio tem habitado. Embora a flor tenha chegado a idade milenar, ela não é necessariamente imortal: pois todas as coisas têm seu próprio termo de existência e decadência, e nada se criou sem sua previsão de morte... Eu não o aconselho a matar a planta… mas eu posso lhe fornecer a informação que deseja. Na ravina entre as montanhas, por onde você veio a buscar-me, ali flui uma fonte de veneno mineral incolor, mortífero a toda forma de vegetação ofídica deste mundo…

A Occlith continuou, dizendo a Lunithi o método pelo qual a poção deveria ser preparada e administrada. A fria, monótona e ríspida voz concluiu:
— Eu respondi à sua pergunta. Se há algo mais que deseja aprender, seria bom perguntar-me agora.

Prostrando-se novamente, Lunithi agradeceu à Occlith e, achando que aprendera tudo que era necessário, ele não aproveitou a oportunidade para fazer mais pergunta alguma à estranha entidade de rocha viva. E a Occlith, críptica e alheia em sua meditação contínua e impenetrável, aparentemente considerou apropriado não dizer coisa alguma que não fosse perguntada diretamente.

Saindo do abismo emparedado em mármore, Lunithi voltou apressadamente pela ravina até alcançar a lagoa da qual a Occlith falara. Pausou para esvaziar o seu frasco de água e encheu-o com o líquido raivoso e sibilante. Então ele continuou sua jornada de volta para casa.

Ao fim de dois dias, depois de incríveis fadigas e tormentos no inferno abrasado de Aphom, ele chegou a Lospar durante as horas de escuridão e sono, tal como a deixara. Como sua saída não fora anunciada, todos haviam suposto que ele se retirara para o santuário subterrâneo sob a pirâmide da Voorqual para propósitos de prolongada meditação, como era às vezes o seu costume.

Entre a esperança e a hesitação, temendo o abortamento de seu plano e ainda se contorcendo de pensar em sua impiedade tão audaciosa, Lunithi esperou a noite anterior ao duplo amanhecer do solstício em que, em uma sala secreta da pirâmide negra, a monstruosa oferenda seria preparada. Nala seria morta por um sacerdote ou sacerdotisa, escolhido por sorteio, e seus fluidos vitais gotejariam do altar canalizado até uma grande taça, e a taça seria então levada em ritos solenes até a Voorqual, e seu conteúdo seria derramado dentro do maldito cálice suplicante da flor sanguinária.

Ele pouco viu Nala durante este interim. Ela estava mais distante que nunca, e parecia ter se consagrado completamente ao destino que se aproximava. A ninguém — e muito menos à sua amada — Lunithi ousou mencionar a possibilidade de evitar o sacrifício.

Sobreveio então a temida manhã, com uma aurora súbita de tons brilhantes que se transformou em uma escuridão enfeitada de chamas matinais. Lunithi se esgueirou pela cidade adormecida e entrou na pirâmide cujo negrume se erguia massivamente em meio à frágil arquitetura dos edifícios que eram pouco mais do que toldos e janelas incrustrados em poucas pedras. Com infinito cuidado e atenção ele completou os preparativos prescritos pela Occlith. Em uma sala iluminada pela luz guardada do sol ele derramou na imensa taça sacrificial de metal negro o veneno sibilitante e fervento que trouxera consigo das montanhas brancas. Então, abrindo habilmente uma veia em um de seus braços, ele adicionou certa quantidade de seu próprio fluido vital à poção mortífera, sobre cuja face de fumegante cristal ele flutuou como um óleo mágico, sem se misturar, de forma que toda a taça parecia estar cheia do líquido mais aceito pela flor satânica.

Levando em suas mãos o graal negro, Lunithi subiu pela escadaria esculpida que levava à presença da Voorqual. Com seu coração apertado e seus sentidos rodopiando em frios gargalos de terror, ele surgiu no alto terraço acima da cidade sombria.

Em uma melancólica luminosidade azul imposta pela estranha iridescência dos raios de luz que anunciavam o duplo amanhecer, ele viu o balouçar sonífero da planta monstruosa e ouviu o seu silvo sonolento que era respondido preguiçosamente pela miríade de outras flores dos andares inferiores. Um opressivo pesadelo, negro e tangível, parecia fluir da pirâmide e repousar como uma sombra estagnada sobre todas as terras de Lophai.

Perplexo com sua própria ousadia, e imaginando que seus pensamentos ocultos certamente seriam compreendidos quando se aproximasse, ou que a Voorqual suspeitaria de uma oferenda feita antes da hora costumeira, Lunithi reverenciou seu suserano vegetal. A Voorqual não deu nenhum sinal de que se dignara a perceber sua presença, mas o grande cálice floral, com suas manchas carmim desbotadas para clarete e púrpura pelo lusco-fusco do amanhecer, adiantava-se como se pronto a receber seu presente odioso.

Ofegante e a ponto de desmaiar de tanto medo religioso, em um momento de suspense que pareceu eterno, Lunithi despejou o veneno disfarçado em sangue dentro do cálice. O veneno borbulhou e assobiou como uma fermentação mágica quando a flor sedenta o bebeu, e Lunithi viu o galho escamado recolher-se, tombando a demoníaca copa rapidamente, como se repudiasse a bebida duvidosa.

Mas era tarde, pois o veneno fora absorvido pelo revestimento poroso da flor. O movimento de inclinação mudou em meio à sua execução, transformando-se em um encolhimento como o de um braço de réptil, e então o caule imenso e escamoso da Voorqual começou a balançar, fazendo sua coroa de folhas dançar um bailado mortal, acenando para a escuridão das cortinas da manhã. Seu assobio contínuo e profundo cresceu até uma nota insuportável, marcada pela dor de um diabo moribundo. Olhando para baixo a partir da borda da plataforma em que se agarrava para evitar os movimentos da erva, Lunithi viu que as plantas nos terraços inferiores estavam também balançando em louco uníssono com sua mestra. Como os ruídos de um sonho doentio, ele ouviu o coro de seus assobios torturados.

Não ousou olhar novamente para a Voorqual até que percebeu um estranho silêncio e viu que as flores abaixo haviam cessado de agitar-se e pendiam lânguidas sobre seus caules. Então, incrédulo, ele soube que a Voorqual morrera.

Voltando-se em triunfo mesclado a horror, ele contemplou o tronco flácido que caíra prostrado em seu leito de adubo inominável. Ele viu o súbito tremido das folhas duras e cortantes, da repulsiva e infernal taça. Mesmo o bulbo pétreo parecia desmoronar e desfazer-se diante de seus olhos. Todo a planta, com suas cores malignas desbotando rápido, encolhia e caía sobre si como uma imensa pele de cobra.

Ao mesmo tempo, de uma maneira indescritível, Lunithi ainda tinha consciência de uma presença que parecia gravitar sobre a pirâmide. Mesmo com a morte da Voorqual, lhe parecia que não estava só. Então, enquanto contemplava e esperava, temendo algo que não sabia o que era, sentiu a passagem de uma coisa fria e invisível — uma coisa que atravessou seu corpo como as curvas grossas de uma imensa serpente, sem som algum, em ondulações calmas e viscosas. Um momento depois e ela desaparecera, e Lunithi não mais sentia a presença apavorante.

Ele se preparou para sair, mas parecia que a noite que terminava ainda estava cheia de um horror inconcebível que se depositava diante dele enquanto descia pela longa e sombria e escadaria. Lentamente ele a percorreu, um desespero curioso o acometia. Ele matara a Voorqual, ele a vira se retorcer em agonia. Mas não podia crer que no que fizera, a remoção do antigo mal ainda lhe parecia não ser mais que um mito tolo.

A penumbra começou a iluminar-se enquanto ele passava pela cidade sonolenta. De acordo com o costume, ninguém deveria estar fora de casa por uma hora ainda. Então os sacerdotes da Voorqual se reuniriam para o holocausto sangrento anual.

Na metade do caminho entre a pirâmide e o seu palácio, Lunithi ficou mais do que assustado ao encontrar a donzela Nala. Pálida e fantasmagórica ela passou por ele em um movimento súbito e balançante, quase serpentino, que diferia muito de seu langor habital. Lunithi não ousou interpelá-la ao ver seus olhos fechados e tranquilos, como os de uma sonâmbula, e ficou surpreso e perturbado pela estranha facilidade e certeza inatural de seu movimento, que lhe lembrava algo que ele temia relembrar. Em um tumulto de fantásticas dúvida e apreensão ele a seguiu.

Seguindo pelo exótico labirinto das ruas de Lospar com o leve e sinuoso deslizar de uma serpente que volta para casa, Nala entrou na pirâmide sagrada. Lunithi, menos esperto que ela, ficara para trás, e não viu por onde ela entrara, na miríade de porões e câmeras, mas uma intuição obscura e temível conduziu seus passos sem demora até a plataforma no topo.

Ele não sabia o que encontraria lá, mas o seu coração estava dopado por um desespero esotérico, e ele não sentiu nenhuma surpresa quando lá chegou, à luz multicolorida da manhã, e contemplou a coisa que o esperava.

A donzela Nala — ou aquilo que ele sabia ter sido ela — estava de pé sobre o adubo abominável, sobre os restos murchos da Voorqual. Ela tinha sofrido — e ainda estava sofrendo — uma metamorfose monstruosa e diabólica. Seu corpo frágil e esbelto tinha assumido um formato longilíneo, como o de um dragão, e a sua pele tenra estava marchetada de escamas incipientes que escureciam visivelmente em uma confusão de tons doentios. Sua cabeça não era mais reconhecível como tal e a fisionomia humana estava desaparecendo em um estranho semicírculo de folhas pontiagudas. Seus membros inferiores tinham se juntado e lançado raízes no chão. Um de seus braços estava se tornando parte do corpo reptiliano, e o outro estava se alongando em um galho escamoso que formava o cálice de uma flor vermelha escura e sinistra.

Mais e mais a monstruosidade tomou a aparência da Voorqual, e Lunithi, esmagado pelo horror ancestral e pela fé terrível de seus ancestrais, não podia ter mais nenhuma dúvida de sua identidade. Logo não havia mais nenhum traço de Nala na coisa diante de si, que começou a oscilar com um ritmo sinuoso de cobra e a sibilar profunda e medonhamente, com o que as plantas dos degraus inferiores responderam. Ele soube, então, que a Voorqual tinha retornado para exigir seu sacrifício e presidir para sempre a cidade de Lospar e o mundo de Lophai.
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Re: Tradução: "O Demônio da Flor" (Clark Ashton-Smith), versão 1

Mensagem por joaofld em Seg 25 Mar 2013, 11:53

Por José Geraldo Gouvea

Por favor, comentários e sugestões
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Re: Tradução: "O Demônio da Flor" (Clark Ashton-Smith), versão 1

Mensagem por joaofld em Seg 25 Mar 2013, 11:57

São chutes. Aqui estão algumas considerações sobre os dois primeiros parágrafos. Vou tentar terminar a leitura ao longo do dia e vou fazendo observações parágrafo a parágrafo. Acho mais fácil.

Abraço!

A vegetação do planeta Lophai não é como as plantas e flores da Terra, que crescem pacíficas sob um sol solitário. Enrolando e desenrolando em manhãs duplas, crescendo tumultuosamente sob vastos sóis de verde jade e alaranjado rubi, vibrando se agitando em ricos ocasos, em noites toldadas por auroras; elas parecem campos de serpentes enraizadas que dançam eternamente para uma música sobrenatural.

Sol solitário, apesar de poético, não é um pouco estranho? Pois a característica dos sóis não é serem solitários? Talvez, a palavra único seja adequado, pois como o conto parece ser de ficção científica (ainda não li ele todo), você faria referência aos outros textos de FC que se utilizam de vários sóis (isso, eu estou imaginando que ocorra) e dá um "motivo" de porque é importante dizer que o planeta Lophai tinha um único sol. Faz sentido?

Manhãs duplas? A intenção é dizer que a manhã do planeta demora o dobro da manhã do nosso? Não seria interessante substituir por manhãs mais longas ou mais extensas, pois, a não ser que manhãs duplas sejam um termo a ser usado constantemente, ele causa muita estranheza.

Muitas eram pequenas e furtivas, e rastejavam como víboras no chão. Outras eram altas como jiboias, chegando soberbamente a posturas hieráticas diante da luz brilhante. Algumas cresciam com caules únicos ou duplos que se desenvolviam em cabeças de hidra e outras eram franjadas e enfeitadas com folhas que sugeriam as azas de lagartos voadores, os pendões de lanças fantásticas, os filactérios de estranhas ordens sacerdotais. Algumas pareciam possuir as escamas escarlates dos dragões, outras eram linguadas como as chamas negras ou os vapores colorados que saem do crepitar de incensários bárbaros, mas outras eram ainda armadas com redes ou gavinhas carnadas ou grandes inflorescências como escudos perfuradas em batalha. E todas eram equipadas com dardos e dentes venenosos, todas eram vivas, incansáveis e inteligentes.

Desabrochavam não seria melhor?

A outra é só questão de concordância!


Última edição por joaofld em Seg 25 Mar 2013, 11:59, editado 1 vez(es)
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Re: Tradução: "O Demônio da Flor" (Clark Ashton-Smith), versão 1

Mensagem por joaofld em Seg 25 Mar 2013, 11:58

Por José Geraldo Gouvea

Na verdade Lophai tem dois sóis, mas naquele momento somente um havia nascido.
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Re: Tradução: "O Demônio da Flor" (Clark Ashton-Smith), versão 1

Mensagem por joaofld em Seg 25 Mar 2013, 11:58

Então, a questão dos dois sóis me deixou intrigado. Talvez, pela minha pouca prática de leitura de FC, não me dei conta de que sol solitário é uma informação (não tão) clara de que existe mais de um sol no tal lugar.

Daí, eu li o conto todo e faço os comentários a seguir.

Infinito era o poder exercido por este ser sobre a gente que, por falta de nome melhor, considerei a humanidade de Lophai. Numerosas e assustadoras eram as lendas que haviam surgido, através das eras, a respeito da Voorqual. E horrível era o sacrifício demandado cada ano no solstício de verão pelo demônio: encher seu cálice com o sangue de um sacerdote ou sacerdotisa escolhido entre os hierofantes reunidos diante da Voorqual até que este, invertido e vazio, baixasse como uma mitra infernal sobre a cabeça de um deles.

O primeiro grifo é só pra notar a falta do a: demandado a cada ano.

O segundo me causou confusão. Eu não consegui perceber a ordem dos acontecimentos, por essa frase. Num parágrafo à frente é esclarecido. Talvez substituir o até que este, pois dá a ideia de que se deveria encher o cálice de sangue até que o cálice emborcasse sobre a cabeça de alguém.

Trêmulo diante de sua impiedade, ele se perguntou se não haveria alguma maneira de salvar Nala, subtrair ao demônio o seu tributo macabro. Para fazer isso e escapar impunemente, e a seus súditos, sabia que deveria atentar contra a própria vida do monstro, que acreditava-se ser eterno e invulnerável. Parecia ímpio até mesmo pensar a respeito da veracidade de sua crença, que havia sido aceita por tanto tempo que adquirira a força de uma fé religiosa e era praticada unanimemente. Em meio a tais reflexões Lunithi lembrou de um velho mito antigo sobre a existência de um ser neutro e independente conhecimento como a Occlith: um demônio coevo da Voorqual, que não era aliado nem do homem e nem das criaturas florais.

O primeiro grifo é o e a seus súditos que parece querer dizer que ele queria salvar os súditos e faltou pouco para dizer escapar dos súdito.

O segundo é: não seria melhor inverter a ordem da expressão e dizer: de conhecimento independente?

Este ser diziam viver além do deserto de Aphom, nas desabitadas montanhas de rocha branca, acima do hábitat das flores ofídicas. Há muito tempo nenhum homem via a Occlith, porque a jornada através de Aphom não era fácil de se levar a termo. Mas esta entidade era supostamente imortal e se mantinha à parte e isolada, meditando sobre todas as coisas sem interferir nunca em seus processos. Porém, dizia-se que no passado ela dera valiosos conselhos a certo rei que deixara Lospar e fora até o seu tugúrio entre os rochedos brancos.

Aqui é só um estranhamento. Não falta um que, ali no meio?

Era preciso que procedesse com a máxima cautela, confiando em ninguém, ocultar todo o tempo os seus pensamentos do escrutínio oculto da Voorqual. No intervalo de cinco dias entre a escolha da vítima e a consumação do sacrifício ele deveria levar a efeito o seu plano louco.

Outro estranhamento: não falta um não, ali?

Lunithi, tal como todos de sua raça, podia subsistir durante prolongados períodos sem outra nutrição que não a luz do sol e a água. Trouxera consigo um frasco de metal, cheio da água de Lophai, que bebia raramente enquanto descia ao abismo, pois as montanhas brancas eram secas e ele temia tocar as poças e correntezas de fluidos desconhecidos por que cruzava às vezes na penumbra. Havia fontes de cor sanguínea que fumegavam e borbulhavam diante dele e depois desapareciam em rachaduras sem fundo, e também riachos de metal mercurial, verde, azul ou âmbar, que passavam perto dele como serpentes liquefeitas e então escorriam para dentro de cavernas escuras. Agros vapores subiam das fendas do abismo e Lunithi se sentiu entre os estranhos processos químicos da natureza. Neste mundo fantástico de pedra, que as plantas de Lophai nunca poderiam invadir, ele parecia ter deixao muito para trás a diabólica e impiedosa tirania da Voorqual.

O primeiro: penso que o sentido da expressão é dizer que ele bebia parcimoniosamente, por isso não seria interessante dizer que bebia aos poucos? Porque dizer raramente dá a impressão de que ele só bebia quando lembrava que a bebida estava ali. Ou, então, inverter e dizer raramente bebia, que me parece está mais de acordo com a ideia do texto, pois dá a ideia de beber lentamente para durar mais. Mas, se for a ideia de que pela resistência que essa humanidade tinha não havia necessidade de beber água com tanta frequência, esquece tudo do que eu disse. Very Happy

O segundo: talvez, o por não seja necessário. Me parece ser um uso mais português que brasileiro.

O terceiro: esse às vezes não está sobrando, aí?

Arrow Vou reformulara frase só pra explicitar melhor que estou querendo dizer: correntezas de fluidos desconhecidos que cruzava em alguns momentos.

Pra mim, parece que tem alguma informação sobrando e não casando. Parece que o às vezes não está casando com a penumbra. Penso que a penumbra, talvez, possa ser retirada, já que foi informado antes que o cara está na sombra criada pela montanha.

Voltando-se em triunfo mesclado a horror, ele contemplou o tronco flácido que caíra prostrado em seu leito de adubo inominável. Ele viu o súbito tremido das folhas duras e cortantes, da repulsiva e infernal taça. Mesmo o bulbo pétreo parecia desmoronar e desfazer-se diante de seus olhos. Todo a planta, com suas cores malignas desbotando rápido, encolhia e caía sobre si como uma imensa pele de cobra.

Nesse, é só o gênero, mesmo!

Sobre o conto: eu gostei. Essa história de possessão é bem interessante. É uma ideia politica/social/psicológica muito válida: não adianta destruir o sintoma se a causa do problema é muito mais profunda. Que veneno usar para cortar as raízes malignas entranhadas na alma?
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Re: Tradução: "O Demônio da Flor" (Clark Ashton-Smith), versão 1

Mensagem por joaofld em Seg 25 Mar 2013, 11:59

Por José Geraldo Gouvea

Obrigado pelas correções. Algumas das coisas que você estranhou acabaram sendo calques que transpiraram do original inglês. Vou corrigir tudo lá no blogue.

Em tempo: o Sol solitário de que se fala no começo é o sol da terra. As plantas de Lophai não são como as da terra, que crescem sob um sol só (porque as de lá crescem sob dois...)
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Re: Tradução: "O Demônio da Flor" (Clark Ashton-Smith), versão 1

Mensagem por joaofld em Seg 25 Mar 2013, 12:01

Eu tenho algum recalque com esse sol solitário. Eu li algumas vezes esse início e não percebi. Shocked

Égua! Shocked
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Re: Tradução: "O Demônio da Flor" (Clark Ashton-Smith), versão 1

Mensagem por JGGouvea em Ter 26 Mar 2013, 21:41

Obrigado pelas dicas, João. Já corrigi no blogue.

Acho que vou começar a traduzir outros contos do Smith.
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Re: Tradução: "O Demônio da Flor" (Clark Ashton-Smith), versão 1

Mensagem por Maurem Kayna em Ter 26 Mar 2013, 23:00

Gostei de assistir essa conversa / troca sobre tradução. Não me atrevo ainda, mas penso em traduzir um conto de Alice Munro.
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Re: Tradução: "O Demônio da Flor" (Clark Ashton-Smith), versão 1

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