Conto: Cigarro

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Conto: Cigarro

Mensagem por Guga Pierobom em Qui 25 Abr 2013, 18:03

Pessoal, este é o último conto que escrevi, já há um tempinho. Pra quem ainda não leu e se interessar, aí vai:




Um salão de festas vazio.

Foi usado na noite anterior, então há muitos tocos de cigarro e copos descartáveis e alguns objetos pessoais perdidos, esquecidos ou deixados, espalhados pelo piso de parquet.

Um faxineiro limpava tranquilamente aquela bagunça. Ainda sentia um perfume que flutuava invisível no ar e sentia o cheiro de cigarros já fumados e de bebida velha e de salgadinhos, e então sente um forte odor de cigarro que supera todos os outros cheiros.

O faxineiro observou ao redor e descobriu, no lado oposto do salão e deitado num cinzeiro de mármore, um cigarro aceso queimando por conta própria. Não estava lá há um segundo, mas agora estava, com anéis de fumaça azulada elevando-se em ritmo de dança no ar, formando círculos e semicírculos até desaparecerem no nada.

Ele se aproximou e viu lábios de batom vermelho tatuados no filtro branco. A imagem de uma bela mulher, antiga habitante de seus sonhos carnais, lhe assaltou a mente: o vestido vermelho, justo e longo percorrendo suas curvas e as teias de cabelos negros fazendo carícias nos ombros nus ao passo que a face da musa onírica é um espaço vazio habitado somente pelos lábios vermelhos de batom.

O faxineiro fitou o cigarro por um momento, repousado em seu leito de mármore, como excalibur um dia repousou na lápide do rei até que um herdeiro digno fosse reclamá-la.

Um pouco desconfiado, voltou à sua faxina. A vassoura deslizando sobre o parquet, fazendo pequenos montes de lixo por todos os cantos e uma camada de pó transparente, que coloria-se de areia ao contrastar com os focos de raios solares que penetravam pelas janelas.

Começou a limpar os vários cinzeiros espalhados pelas mesas, tendo o cuidado de evitar O cinzeiro, onde aquele cigarro queimava sem consumir-se por completo e sem se apagar, coisa que normalmente acontece em poucos minutos.

As outras mesas já estavam todas limpas, a louça lavada e o piso encerado. Faltava aquela mesa, envolta por fumaça azul que parecia tomar forma de um longo dedo indicador, convidando-o a se aproximar.

Ele postou-se a uma distância que julgou ser segura, de pé, com os antebraços apoiados no cabo da vassoura, e limitou-se a vigiar os lábios vermelhos como se fossem escapar num piscar de olhos. Aquele formato sensual o atraía como um câncer disfarçado no prazer, uma doença implacável convocando o anjo ceifador a roubar a vida de um corpo terminal.

Os raios solares começaram a abandonar as janelas e o salão foi sendo aos poucos mergulhado na penumbra.

Os móveis e as paredes e sua vassoura e seus braços foram sendo tragados pela escuridão, e restava a ponta em brasa do cigarro beijado pela musa sem face.

Não podia mais suportar ver a marca de batom continuar a desaparecer. Desesperou-se! Queria morrer. Não! Implorava pela morte, se esta estava impregnada naqueles lábios em forma de um veneno irresistivelmente, inegavelmente, devastadoramente prazeroso.

Correu em direção à brasa e sem hesitar uma fração de segundo tomou o cigarro entre seus dedos e beijou longamente os lábios vermelhos numa amarga e inesgotável tragada. Devolveu o cigarro a seu catre cinzento, e foi embora, sem conseguir expelir de volta a fumaça azulada que inundaria perpetuamente seus pulmões.

Guga Pierobom

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