“O Meio É a Mensagem”: Como McLuhan prevê o que acontecerá com a literatura

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“O Meio É a Mensagem”: Como McLuhan prevê o que acontecerá com a literatura

Mensagem por JGGouvea em Qua 27 Mar 2013, 21:54

Este texto presume que todos estão mais ou menos inocentes das ideias de Marshall McLuhan. Os que tenham lido sua obra notarão discrepâncias, simplificações, e várias coisas dignas de vergonha, de minha parte.

Se Marx interpretou a história em torno da economia, Marshall McLuhan interpretou-a de forma também radical: a partir da história da escrita. Para McLuhan, a economia é determinada pela mente do homem e seus valores, mas ambos, mente e valores, são determinados pelo modo como o homem lida com o conhecimento. Então, segundo o canadense, a força motriz da história não é a economia, mas a transmissão da informação. E o modo como essa transmissão se dá influencia o conteúdo da própria informação. Este é o famoso conceito de que "o meio é a mensagem". A frase não foi pensada como um aforisma absoluto, mas contextualizada em relação a tais transformações.

A história da humanidade não estaria, então, dividida em fases cronológicas, mas em estágios de um processo de desenvolvimento cultural. McLuhan concebeu dois estados mentais básicos: o oral e o visual, segundo o meio predominante de transmissão do conhecimento. O estado oral é o das sociedades iletradas, que transmitem o conhecimento através do ensinamento direto dos homens sábios, anciões e xamãs. O estado oral corresponde ao estágio tribal de desenvolvimento humano. Para McLuhan, toda a história humana nada mais é do que o processo de "destribalização" das pessoas ("das pessoas" note bem) pelas tecnologias de escrita disponíveis, que convergem cada vez mais para uma transmissão visual e impessoal do conhecimento.

Os estágios de desenvolvimento seriam então o tribal, que surge quando o ser humano passa a conviver em grupos de indivíduos, e o civilizado, que se subdivide em três: o estágio da escrita hieroglífica, o estágio da escrita alfabética e o estágio da imprensa. McLuhan intuiu que a difusão dos computadores poderia criar um novo estágio, mas eu não cheguei a ler suas obras posteriores, então não vou comentar sobre esses conceitos.

A escrita hieroglífica, por ser trabalhosa de aprender, difícil de praticar e, quase sempre, difícil de ler sem um guia cultural adequado, tem um baixo poder de destribalização e, por isso, os povos que continuaram usando-a exclusivamente não desenvolveram instituições capazes de subjugar o indivíduo ou romper com o costume. As sociedades que empregam escritas hieroglíficas são conservadoras ao extremo, como o Egito, que se manteve por 3000 anos, e a China, desde a mais remota antiguidade. Isso porque essas escritas não afetam muito a percepção do tempo como um ciclo repetitivo. O calendário chinês, por exemplo, conta ciclos de sessenta anos (doze signos anuais vezes cinco elementos relacionais).

A escrita alfabética, por ser descomplicada para aprender, simples de escrever e fácil de ler, mesmo sem referências (a ponto de ser possível ler línguas que não entendemos) tem um poder de destribalização muito maior, especialmente quando ela deixa de ser ornamental e passa a ser escrita de forma sequencial (esquerda para a direita, de cima para baixo). A escrita alfabética foi responsável pela criação da noção de tempo linear e, consequentemente, dos conceitos de criação e de fim do mundo. O tempo passa a ser contado sem reinícios, como a Era Romana, que remontava à fundação da cidade, em 756 a.C. (segundo o mito). O tempo linear sugere não apenas que houve um começo, mas que há um PROCESSO, que pode ser acelerado ou desviado. O tempo linear, então, cria os conceitos de História e de política. No mito grego, o rei Cadmo (inventor do alfabeto) semeou dentes de dragão (as letras angulosas do alfabeto fenício eram escritas em tabuinhas de argila) e colheu homens armados (as civilizações alfabetizadas se caracterizam por serem mais agressivas e por buscarem intencionalmente as mudanças, em vez de apenas sofrerem-nas).

O efeito destribalizante do alfabeto decorre da eliminação da intermediação das antigas gerações. Nas sociedades tribais, o conhecimento acumulado só pode ser obtido por transmissão direta: é necessário tornar-se discípulo do sábio, o que envolve a aceitação iniciática por parte dele. O sábio escolhe, obviamente, a quem transmitir o seu conhecimento, o que significa que as pessoas somente podem ter acesso à informação se forem previamente consideradas seguras. Pessoas potencialmente subversivas permanecem ignorantes. Mas o alfabeto, ao permitir a criação do livro, despersonaliza o ensinamento: quem quer que saiba ler poderá pegar o livro e aceder ao conhecimento, sem necessidade de rito iniciático ou aceitação ideológica. Os subversivos podem conhecer. Por isso, toda vez que um conhecimento é codificado ocorre uma valorização da coisa (papel) em detrimento do ser (sábio).

Essa coisificação do conhecimento se reflete no surgimento das religiões universais. Quando os hebreus criam o conceito de Bíblia, o movimento profético se fecha. As palavras dos profetas são postas em livros, mas não há mais profetas na rua. Algo semelhante ocorre na Arábia de Maomé, último e mais perfeito profeta segundo o Islão. Porém, não é impunemente que a palavra de Deus encarna no papel: a disponibilidade para a sua leitura faz com que surjam interpretações discordantes de seu teor e intenção. A heresia surge quase que concomitantemente. Desde décadas antes de Jesus, o judaísmo já estava fraturado em pelo menos quatro ou cinco facções. O cristianismo já foi fundado aos pedaços e os Islã nunca gozou de unidade firme por mais do que os primeiros trinta e poucos anos da morte de Maomé.

A fragmentação ocorre porque nas religiões tribais o indivíduo segue o líder sem conhecer a mensagem. O líder é a mensagem. Quando deixa de existir o líder como fonte da mensagem, quando a mensagem se fixa no papel, o exercício da liderança é questionável, pois o líder pode, a qualquer momento, incorrer em algo contrário ao preceito escrito. O líder é diminuído, é forçado a seguir o ditame do Livro.

No ocidente, graças à Idade Média, impôs-se um tipo de religiosidade tribal, o catolicismo romano, que se baseava justamente na supressão do Livro. Mas a invenção da Imprensa, por Gutenberg, facilitou a produção do livro. Não tardaram nem cem anos para que ocorressem violentos cismas religiosos e guerras no coração da europa. Mais uam vez os dentes de dragão geraram soldados.

A invenção de Gutenberg adiciona velocidade ao processo de destribalização. Nas sociedades mais desenvolvidas, aquelas onde o hábito da leitura se difunde mais rápido, não há mais lugar para uma religiosidade baseada em estruturas orais. Isto explica porque o catolicismo sobreviveu no atrasado sul da Europa, mas entrou em rápida e irreversível crise nas regiões mais modernizadas e letradas.

A invenção da escrita, a invenção do alfabeto e a invenção da tipografia foram momentos definidores da história, que mudaram o modo como os seres humanos pensam. A destribalização é um fenômeno real, que se reflete até mesmo na Guerra Fria. Os espiões russos ouviam e relatavam, os americanos tinham uma obsessão por roubar documentos e tirar fotos. A oralidade e a informalidade russas tornaram sua espionagem mais capaz de roubar segredos americanos do que o contrário. Ao se pegar um espião russo, nunca havia provas materiais de sua atuação. Mas os espiões americanos sempre tinham bolsos cheios.

A invenção da escrita hieroglífica não acabou com a oralidade literária, apenas criou um tipo diferente de registro, que nem era literário. A invenção do alfabeto, porém, logo fixou a literatura em papel. E a tipografia aprofundou essa tendência de tal forma que a poesia, gênero originalmente cantado à lira, chegou, com o concretismo, a ser um ornamento visual da página, ilegível e não verbal.

O efeito multiplicador da tipografia sobre o alfabeto se dá porque cada vez mais as pessoas vêem as letras individuais, eliminando os floreios, ligaturas e formas variantes. Isso enseja o pensamento racional, que categoriza a natureza, compartimenta cada vez mais as áreas de conhecimento. E que concebe um tempo linear, com começo e fim. Se os primeiros livros impressos eram semelhants aos manuscritos iluminados, a tendência com o tempo foi chegar à frugalidade do livro moderno, isento de todo ornamento.

Algo semelhante ocorrerá com o triunfo do meio eletrônico sobre o físico. Se os e-books de hoje macaqueiam os livros, até em efeitos de virar página que são análogos às iluminuras feitas à mão que ornavam as páginas dos primeiros incunábulos impressos, os do futuro diferiram deles tanto quanto uma papiro antigo diverge de uma edição de bolso do mais recente best-seller.

É fácil prever que certas mudanças se processarão, inclusive no formato das letras que usamos. Tendemos a acreditar que isso não acontece, mas é só pegar um livro do século XVI e vemos imediatamente que as letras então usadas não são idênticas às de hoje. Usava-se muita ligadura, muita variação posicional (letras que mudavam de forma conforme aparecessem no começo, meio ou fim do vocábulo) e muito traço ornamental. Gradualmente isso foi sendo eliminado, até chegarmos às letras "grotescas" ou "sem serifa", como esta em que você está lendo a página. A apresentação do texto em uma tela é diferente de sua impressão no papel. Fontes desenvolvidas para a tela, como a Verdana, a Tahoma, a DejaVu e a Liberation têm formas grosseiras e simples, com longas retas e curvas regulares. Isso serve para evitar pixeis desnecessários, mantendo a imagem "limpa" mesmo em baixa resolução.

Não é difícil supor que estas mudanças ocorridas desde o século XVI venham a continuar. Já houve um momento bem recente em que a tecnologia influenciou o modo de escrevermos, e isso foi com a invenção da máquina de escrever. Como você lembra, as letras tinham que ter exatamente a mesma largura e altura, o que gerou ornamentos como o corte do "i" minúsculo, e limitações como o pobre "m" espremido quase a virar um borrão. Devido à limitação da quantidade de teclas, símbolos tipográficos antigos foram abandonados, como o travessão, o menos, o parágrafo, o asterismo, as aspas curvas, etc. Quando o computador ofereceu novamente a possibilidade de usar com facilidade tais símbolos, a maioria das pessoas nem mais lembrava o que eram. Você pode contar nos dedos quantas pessoas sabem diferenciar um hífen de um menos e são poucos os que se importam em usar corretamente o travessão. Parágrafo e asterismo são arcaísmos esquecidos.

Se um processo semelhante continuar a ocorrer, as letras tenderão a ficar mais diferenciadas, as ligaduras vão desaparecer de novo e usos como a separação silábica de translineação serão abandonados. E isso ocorrerá pouco depois de as pessoas terem se esquecido o que significa o curioso efeito que faz uma tela de texto quando passa para outra.

Este efeito, por sua vez, depende do conceito de página, e a página só existe por causa de Gutenberg. Antes dele, a escrita era em rolos (de papiro ou papel) e ninguém se preocupava com isso. O meio eletrônico elimina a página e possibilita que o autor novamente possa enxergar seu texto como um "rolo".

Outro efeito da alfabetização é criar a ilusão da autoria. Em uma sociedade oral, ser "autor" é um péssimo negócio porque as pessoas não estão interessadas em você mesmo, mas no que você pode contar dos antepassados. Assim, somente autores mortos têm valor. Isto explica porque quase todos os livros da Bíblia são apócrifos: um autor contemporâneo não teria poder de ditar conhecimento, somente um autor mítico ou falecido há muito. Como não havia baús de inéditos dos grandes nomes do passado, a solução foi simplesmente inventar tudo. E inventar tudo é o que faz a essência do mito, e o mito é o coração da sociedade tribal.

Mas quando o homem se alfabetiza e passa a escrever no papel, o conhecimento fica disponibilizado a quem o queira ler. Isso significa que as pessoas podem confiar ao papel suas ideias e esperar que o papel impessoalmente sirva de ponte até o leitor.

Gutenberg potencializa isso através da produção em série, tornando a obra uma mercadoria, algo com que se pode ganhar dinheiro. Mas o dinheiro só pode ser ganho se houver um controle da oferta. Hoje, graças ao meio eletrônico, a possibilidade de fazer cópias de um original é infinita e o custo, se existe, é apensa uma imposição conservadora da sociedade. Isto significa que um negócio baseado na venda limitada de um produto escasso (o livro) está fadado a extinguir-se cedo ou tarde, eliminando a profissão do escritor.

McLuhan provavelmente veria a criação progressiva de repositórios impessoais de sabedoria na internet como um retorno a uma estrutura mental tribalizante, revertendo milênios de processo alfabetizador. E eu, com base no que leio dele, afirmo que se isso ocorre, o efeito inevitável é um recrudescimento do conservadorismo. Primeiro porque tais repositórios (sábios virtuais) também formam públicos segmentados, numa espécie de seleção reversa (não é mais o sábio que escolhe o discípulo, mas este que escolhe o sábio conforme sua preferência preconcebida), e segundo porque atrás de cada repositório online existem pessoas com seus objetivos e ideologias.

Outra consequencia da volta desse estágio análogo à oralidade primitiva é a retribalização do conhecimento. Não sendo mais possível fragmentar as culturas, devido à pressão uniformizante dos meios de comunicação (exigida inclusiva para que seja potencializao o efeito da intermediação eletrônica do conhecimento), haverá a fragmentação das escolas de pensamento. Haverá no futuro movimenots políticos internacionais e países divididos em torno de ideias alienígenas. E haverá escritores de um país antenados com os de outro sem conhecerem o escritor que vive em outro bairro de sua cidade.

Um efeito, que McLuhan não teria previsto, mas que é óbvio, é a precarização do livro, agora desmaterializado. Uma consequencia disso é o questionametno do sagrado, pois as pessoas logo começarão a perceber que o livro imaterial pode ser facilmente adulterado a qualquer momento. Isso deverá aumentar o ceticismo das pessoas em relação a valores, ou então as fará agarrar-se a preconceitos individuais, recusando o conhecimento. Quando o telefone foi inventado as pessoas tinham tendência a não crer no que ouviam pelo telefone. Em inglês há até um adjetivo "phony" que significa "falso". Num primeiro momento as pessoas rejeitarão o conteúdo online, até que desenvolvam formas de manipulá-lo com segurança. Só que estas formas são imprevisíveis.
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Re: “O Meio É a Mensagem”: Como McLuhan prevê o que acontecerá com a literatura

Mensagem por joaofld em Qua 27 Mar 2013, 21:59

JG, desculpe, acho que fiz algo errado. Sem querer apertei em algo que acho ser um botão que estava ao lado da caixa dentro do seu texto. Parece que isso marcou o teu perfil com alguma coisa negativa.

Foi mal! Embarassed

Com relação ao texto. Muito denso e com muito informação que eu vou demorar um pouco para digerir. Tem algumas coisas que eu discordo, mas que vou precisar reler com calma para argumentar e acrescentar algumas outras informações que parecem caminhar junto com o que o texto diz. study

Abraço!
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Re: “O Meio É a Mensagem”: Como McLuhan prevê o que acontecerá com a literatura

Mensagem por JGGouvea em Qua 27 Mar 2013, 22:55

Você me deu um voto de reputação
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Re: “O Meio É a Mensagem”: Como McLuhan prevê o que acontecerá com a literatura

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